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Uma vez que o herói tem a recompensa ele precisa retornar com ela ao mundo comum.

Neste ponto, há novamente a possibilidade de recusa, desta vez, a recusa do retorno, afinal, trazer o símbolo para o mundo comum exige um esforço tremendo.

Seria mais fácil e simples para aqueles que não querem lidar com esta responsabilidade, uma permanência na caverna, num estado inconsciente.

O retorno para o mundo cotidiano envolve voltar à vida comum, cumprir suas enfadonhas exigências diárias, porém, sem as velhas bases que o sustentavam.

“Qual é, então, o significado de que se revestem a passagem e o retorno miraculosos? O campo de batalha simboliza o campo da vida, no qual toda criatura vive da morte de outra. Uma percepção da inevitável culpa que o viver envolve pode deixar o coração tão amargurado que, tal como Hamlet ou Arjuna, podemos nos recusar a prosseguir. Por outro lado, tal como a maioria, podemos inventar uma falsa auto-imagem, em última análise injustificável, que nos eleve a um fenômeno excepcional no mundo e à condição de um ser isento de culpa — ao contrário dos outros seres —, que se acha justificado, em seu inevitável pecar, pelo fato de representar o bem. Um tal farisaísmo leva à incompreensão, não apenas de si mesmo, como também da natureza do homem e do cosmo. O alvo do mito consiste em dissipar a necessidade dessa ignorância diante da vida por intermédio de uma reconciliação entre consciência individual e vontade universal. E essa reconciliação é realizada através da percepção da verdadeira relação existente entre os passageiros fenômenos do tempo e a vida imperecível que vive e morre em todas as coisas.”

Trecho do Livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, editora Cultrix.